terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mais problemas em Mediocrenopolis

Rafael Kesler*

Prezados leitores assíduos, em escritos anteriores apresentei-vos uma infame e abominável cidadezinha, denominada Mediocrenopolis; município hediondo, problemático, onde a saúde pública é precária e desumana; a educação é deficiente e vergonhosa; a corrupção brutalmente assola a política; a inaptidão e ilegalidade descaradamente devastam os atos governamentais; a improbidade gravemente macula a casa legislativa; a incompetência e desonestidade do medíocre prefeito e seus inaptos secretários são patentes e odiosas; as repartições e órgãos governamentais são defasados, desestruturados e polutos; a desordem é freqüente e generalizada, etc.
Este texto narra trágico fato ocorrido nessa oprimida cidade.

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Silas, um jovem de apenas 19 anos sofreu acidente de moto. Rapidamente ele foi levado, carregado por populares, – meio vivo, meio morto – para o deficitário pronto-socorro municipal. Lá não havia leito disponível, nem remédios suficientes, nem maca, nem cadeira de rodas; muito menos UTI. O antigo “aparelho de raio X” estava quebrado a meses.
Como último recurso, no sujo e fétido corredor, funcionários estenderam lençol no chão e lá depositaram desumanamente o machucado e agonizante corpo do pobre Silas; por incrível que pudesse parecer ele ainda tinha fôlego de vida.
O único médico plantonista, homem irresponsável e inescrupuloso, não foi trabalhar naquele dia, portanto quem atendeu o acidentado foi um bando de enfermeiras estabanadas e evidentemente despreparadas.
Maria, a mãe daquele ferido moço estirado lastimavelmente no imundo chão, chorou copiosamente ao ver o filho naquelas indignas e deploráveis condições.
Como pode meu Deus?! Como um ser humano pode ser tratado de forma tão atroz e degradante nos dias atuais? Cadê o respeito à vida? (gritou desvairadamente no recinto).
Será que a saúde do meu menino não tem valor? É isso que vocês pensam? (balbuciando, se questionava em meio a lágrimas e convulsivos soluços que provinham do recôndito mais profundo de sua aflita e inconsolável alma).
Ela decidiu agir.
Com ajuda de familiares, a mulher conseguiu levar Silas para a cidade vizinha, Ordinarinopolis, lugar ordinário, onde o pronto-socorro era péssimo, mas pelo menos havia médico e mais recursos (mesmo que ínfimos) para cuidar do infortunado, porém batalhador Silas – que ainda insistia em respirar.

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Silas ficou algum tempo internado; até o dia em que, percebendo a falta de infraestrutura e recursos medicinais, o médico do Hospital Público recomendou que ele fosse levado para casa.
Inconformada, Maria ouviu esta desculpa esfarrapada do velho e desiludido médico: “agora, só o tempo vai dizer se seu filho sobreviverá”.

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Hoje, o guerreiro Silas ainda insiste em respirar... Sim, vive “no fio da navalha”; luta bravamente pra ficar vivo... Porém, seu quadro de saúde piora a cada dia devido à falta de cuidados médicos adequados.
Angustiada, absolutamente revoltada com a precariedade da Saúde Pública municipal, Maria decidiu escrever uma carta de protesto ao medíocre Prefeito de Mediocrenopolis:
“Senhor prefeito, fostes eleito para que? Decentemente cuidar da população ou brevemente diverti-la com grandes espetáculos? Que tipo de cidade hedionda, desprezível e precária não possui leitos suficientes e nem estrutura para cuidar dos adoecidos e acidentados? Por que até hoje, após várias solicitações, o Município não forneceu para meu filho apropriados lençóis, adequada cama, alimentos (para a sonda) e quaisquer outros meios de garantir a sua efetiva recuperação, bem como preservar sua dignidade? Cadê o respeito ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana? Você sabe o que é isso? A lei nos diz: saúde é direito de todos. Será que é?
A cada dia, ao lado do meu filho – sentindo-me absolutamente impotente – vendo-o morrer no quarto da minha pequenina casa sem nada poder fazer, eu perco a fé em relação à vigente estrutura legal. Ela é falha, utópica e ineficaz. Além disso, só aumenta o meu desprezo por esse governo mediocrenopolense de vaidades, futilidades, podridões e mediocridades”.

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Ainda que fracamente, o debilitado Silas continua respirando. Não se sabe até quando continuará; mas torço para que ele e os outros milhares que passam pela mesma situação dramática consigam sobreviver neste mundo cão; nesta sociedade de leis ineficazes, de celerados governantes e perversos legisladores sem empatia e desprovidos de vocação política.

* Rafael Kesler. Araguarino, 24 anos, bacharelando em Direito, licenciando em Letras, premiado por duas vezes consecutivas no renomado Concurso Nacional de Contos Abdala Mameri. Autor do blog: www.rafaelkesler1234.blogspot.com

Texto publicado no dia 23 de fevereiro de 2014 no jornal Diário de Araguari.
(coluna publicada às terças, quintas e domingos)
Contato: rafaelkesler1234@hotmail.com

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