sábado, 27 de março de 2010

História: salvar ou deletar?

Os jornais da cidade trouxeram um interessante embate entre aqueles que batalham pela preservação da história e da cultura araguarina e aqueles outros que amam a poeira da implosão de prédios históricos e a terra que cobre os trilhos do nosso passado. Refiro-se aos textos de Edmar César e Paulo Bolsas, publicados, respectivamente, nos jornais Gazeta do Triângulo e Correio de Araguari.

E aí, leitor, com quem está a razão?

Veja os textos:

O silêncio dos trilhos

Edmar César

Ainda levarei um bom tempo para entender o porquê de tanto descaso com os bens que compõem o patrimônio histórico de um Município. Quero crer que a causa de tudo isso seja o desconhecimento da própria história. Ou quem sabe, do sabor temporário do “direito absoluto” em poder tomar decisões ao bel-prazer em detrimento aos anseios coletivos. Enquanto ali e alhures muitos lutam pela preservação, manutenção e resgate dos valores históricos – que são a palavra de ordem do mundo contemporâneo, seja de um espaço físico, de um prédio, de um dormente, de uma linha de trem, de um prego, sei lá, outros desfazem 100 anos de história, resumindo-os em poeira da estrada. Utilizando máquinas pesadas de terraplenagem, em poucas horas de trabalho derrubam muros, rasgam o solo e enterram trilhos, sem se darem conta da gravidade do soterramento de marcos indeléveis e históricos. Ligados tão somente a lampejos ilusórios em busca do crescimento urbano não indo além do conhecimento restrito da história local, desconhecem o valor imaterial, intangível, sem medidas, que transcende nossa imaginação conquistado com luta, dedicação e às vezes com sacrifício.

Desde a revolução francesa e industrial eclodidas no mundo em pleno século XIX, segue-se sistematicamente constante preocupação com a preservação dos patrimônios históricos da humanidade. Essa luta incessante de inúmeros admiradores dos grandes feitos de gerações pretéritas consolidou-se em diversas leis e normas que norteiam, atualmente, a conduta e os procedimentos com tais bens, contagiando até mesmo leigos e anônimos apaixonados pela beleza e riqueza da história de um povo, de uma terra.

Fiquei, confesso, estarrecido, ao receber a foto aqui publicada que retrata a extensão da rua Luiz Schnoor que ultrapassou, recentemente, os muros do complexo ferroviário da imponente e histórica Estrada de Ferro de Goiás a qual assinalou com esplendor o início do progresso de Araguari e região, no início do século XX.

Da mesma maneira que fizeram com os trilhos que ornamentavam, até a década de 80, a majestosa estação ferroviária de Goiânia – ponto final da “Goiás”, cujos trilhos foram cobertos pela terra, fizeram também em Araguari – ponto inicial de tão expressiva ferrovia de interligação dos Estados de Minas Gerais e Goiás, considerada, à época, um dos principais marcos da marcha evolutiva do progresso do Centro-oeste brasileiro.

Não importa se foram 100, 200, 500 metros de trilhos soterrados, o que importa e preocupa-nos é que aos poucos a nossa história ferroviária vai se desfazendo de metro em metro, como ocorreu no passado com a estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, de sua vila ferroviária, de sua linha férrea e tantas outras perdas injustificáveis.

Aqui jazem as paralelas de aço que foram assentadas por operários mineiros e goianos que se uniram para a formação de uma das maiores, mais cobiçadas e mais respeitadas empresas ferroviárias do Brasil: Estrada de Ferro de Goiás. Histórias e mais histórias poderiam ser retiradas das 800 laudas transcritas das entrevistas colhidas com mais de 60 entrevistados que colaboram com nosso livro em andamento e que ainda hoje, não escondem as lágrimas ao lembrarem da família ferroviária da “Goiás”.

O que poderia fazer parte de um trecho ferroviário restaurado, sem descaracterizações, onde poderíamos ver turistas e visitantes de todos os quadrantes e gente nossa num passeio indescritível à nossa cidade ferroviária, natural, original, autêntica, invejável, aos poucos está se transformando numa rua de terra batida à espera do primeiro banho de camada asfáltica. Amputaram boa parte de um dos trechos à porta, quem sabe, de um dos maiores museus ferroviários do Brasil.

Hoje, mesmo inanimados - silenciosos - sentem-se os trilhos da “Goiás”, sufocados pelo aterro e pela ignorância, sem sequer ao menos poderem se manifestar. Por essa antiga linha férrea, quero crer que os ouvidos mais aguçados dos araguarinos sensatos poderão ouvir o estalo dos dormentes, o tinido do aço e o clamor da estrada. Triste fim dos trilhos da “Goiás”, a continuar assim, Deus queira que não, talvez meus filhos e netos e as gerações vindouras não terão histórias para contar.

* Membro efetivo da cadeira nº 15 da Academia de Letras de Araguari, nº 16 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro e Conselheiro do Memorial Visconde de Mauá.




Paulo Bolsas

Coluna "Acertando o Alvo" (Correio de Araguari)

Patrimônio Histórico

Um atraso para qualquer município este negócio de tombamento pelo Patrimônio Histórico. Nunca na história vimos tanto impedimento de melhoria onde existe o tal tombamento, coisas velhas que não podem ser retiradas, como podemos ver alguns trilhos de ferro que cruzam a cidade, pátio do Palácio que está sujo, mas não pode passar uma máquina para limpar, não sei se foi tão bom fazer deste uma Prefeitura, que tem que receber visitas sem que possam colocar seus carros à sombra de proteção, que não se pode colocar uma calçada decente, com alguns prédios em ruínas, que não podem ser reformados. Será que compensa ter um prédio deste???

4 comentários:

Alessandre Campos disse...

Com a máxima de que patrimônio histórico é um atraso e impede o "progresso", o "desenvolvimento" de uma cidade, estes pseudos jornalista-progressistas-sabichões que nunca contribuíram com a cidade, mal (re)conhecem a cultura da sua raça, do seu povo, da sua própria família e que jamais atingiram um grau se quiser de sucesso e reconhecimento naquilo que se prestaram a fazer por pura incompetência, buscam, agora, os holofotes num assunto que realmente irá gerar debate, ou seja, conspurcam o patrimônio histórico e utilizam da desinformação para preencher linhas ácidas em jornalecos sensacionalistas ou nas ondas radiofônicas para se alto promoverem, porém, de uma forma tão insignificante como eles próprios.

O entendimento em prol da preservação histórica de um povo extrapola a doutrina legal, pois está diretamente ligado ao nível cultural da sociedade.

A geração que não teve acesso a educação, ao conhecimento e tão pouco aos preceitos éticos e morais, considera normal a destruição de um patrimônio cultural quanto considera normal a corrupção, a pedofilia, jogar criancinhas pela janela, espancar idosos, exterminar judeus ou homossexuais, desmatar a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, etc., ou seja, destruir o patrimônio histórico, cultural e ambiental é o mesmo que destruir a si mesmo e enterrar seu pai e sua mãe VIVOS.

Mas, te pergunto, qual o legado de Paulo Bolsas? Qual o legado de Edmar César?

Aristeu disse...

Seguindo o raciocínio do exímio Sr Bolsas eu pergunto: Será que vale a pena tentar dar sobrevida aos nossos velhinhos? Um atendimento a eles não estará impedindo recursos de saúde aos jovens.

Edilvo Mota disse...

Da mesma forma... investir em leitos de UTI pra quê? Se o sujeito tá mal, melhor deixar morrer...

A democracia e a liberdade de expressão, tão caras aos ideais republicanos, permitem esse tipo de arroubo de neo-pseudo-jornalistas-pre-candidatos-a-vereador.

Ao amigo Edmar César rendo homenagens pela brilhante carreira como militar e escritor (imortal da Academia de Letras de Araguari) preocupado com o resgate da história ferroviária e as tradições.

Anônimo disse...

O HOMEM é o único ANIMAL que destrói o ambiente em que vive! (Fausto Silva)